quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Geoglifos Gauchos




Com até 120 metros de diâmetro, centenas de anéis de terra no Rio Grande do Sul intrigam pesquisadores. Confira as imagens de satélite e tire suas próprias conclusões.
Brunos Farias
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Visíveis até do espaço, centenas de anéis de terra no sul do país guardam um mistério sobre suas verdadeiras origens e funções. Com até 120 metros de diâmetro e presentes em diversas cidades do Rio Grande do Sul, segundo alguns moradores locais, estas estruturas seriam cercas de terra feitas por escravos no início da colonização. Nas mesmas rotas onde elas estão localizadas, entre Pelotas e Dom Pedrito (RS), também existem currais de pedra circulares com as mesmas proporções, velhas conhecidas da cultura gaúcha. Mas mesmo assim há quem cogite a possibilidade destas construções, apelidadas de geoglifos por serem melhor visualizadas do alto, terem raízes mais profundas, remontando à pré-história.

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Construções usando taipas de pilão, feitas com argila, galhos e varas prensados, eram comuns no Brasil colonial. Currais de pau-a-pique parecidos também costumavam ser utilizados para marcação de gado, conforme conta o autor uruguaio Aníbal Barrios Pintos em seu livro “De las vaquerias al alambrado” (Ediciones Del Novo Mundo, 1967). No Uruguai e em Santa Vitória do Palmar (RS), alguns desses círculos cercados de árvores, já citados em 1820 por Auguste Saint-Hilaire, foram documentados como “currais de palmas”.

Segundo Pintos e os historiadores André Oliveira e Cláudia Teixeira, depois de cavadas as valas, eram transplantadas mudas de palmeiras, que tinham os espaços entre elas fechados com tiras de couro. Ao ver imagens das supostos cercados, Oliveira concordou com a versão contada pelos moradores: “Essas estruturas se parecem com os currais de palmas encontrados nesta região onde é peculiar a palmeira Butiá capitata. Realmente devem ser encerras, ou seja, currais. No caso de serem de terra deve-se analisar melhor as elevações, provavelmente realizadas por escravos”. O pesquisador estima a idade dessas construções em aproximadamente 200 anos, mesma opinião do professor Joaquim Dias, formado em História e expert no passado de Capão do Leão, que diz que “a época pode se situar desde 1780 até 1900, ou seja, é muito tempo”.
Os arames de metal só chegaram ao estado na década de 1870. Antes disso, as cercas eram feitas com muros de pedra ou com outros materiais como valas cavadas no chão, madeira beneficiada, ananás, bananeiras, pessegueiros e outras árvores frutíferas, bromélias, espinheiros, cana, cactus e até de pau-a-pique. Diferentes fontes falam das rotas usadas para transporte de vacas, cavalos e mulas passando por essa região já a partir do século XVIII, e foi encontrada em um antigo inventário menção a uma Estrada Real passando pelo local no século XIX. Além dos relatos de diversos moradores que chamam a Estrada do Passo dos Carros entre Capão do Leão e Pelotas, onde estão localizados alguns desses enormes círculos, de “Corredor das Tropas”.

Existem também inúmeras citações dos currais sendo usados pelos colonizadores da região durante o século XVIII, na época da preia do gado cimarrón, antes pertencente aos jesuítas. Segundo mapas antigos e outras referências, os tropeiros que transportavam esses animais realmente passavam por ali, além de fotos e textos situarem algumas desses currais de pau-a-pique e de pedra nos atuais municípios gaúchos de Pelotas, Capão do Leão, Aceguá, Bagé e em outras cidades próximas. Porém, mesmo sendo tão falados, é raro encontrar referências visuais sobre os tais cercados, o que mantém o assunto misterioso.


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Apesar de tudo isto bater com a teoria dos anéis de terra como antigas encerras, eles também podem ter sido construídos por povos nativos. Nesse caso a tradição popular que fala das estruturas anelares no Rio Grande do Sul poderia estar equivocada ou simplesmente incompleta, assim como aconteceu com os geoglifos do Acre. Lá, pensava-se que eles seriam “trincheiras da Revolução Acreana”, porém a hipótese ficou defasada quando arqueólogos descobriram que foram povos pré-históricos os autores daquelas construções.

Diferente do que sustentam algumas correntes mais tradicionais da arqueologia, defensoras dos indígenas pré-colombianos como “pequenos grupos nômades que quase não causavam impacto no ambiente onde viviam”, essas pessoas podem ter mobilizado suas sociedades para a construção de fortificações, caminhos elevados, currais de pesca, monumentos funerários e centros cerimoniais, entre outras funções atribuídas pelos especialistas a essas estruturas de terra. É o que conta Charles Mann em seu livro “1491: Novas revelações das Américas antes de Colombo” (Ed. Objetiva, 2005). Exemplos disso são os mounds da América do Norte, os geoglifos do Acre, os cerritos e sambaquis do litoral sul/sudeste do Brasil, as elevações artificiais existentes no estado boliviano de Beni, e as antigas estradas e aldeias cercadas de fossos nas proximidades do rio Xingu, em Mato Grosso, entre outros.
Rodrigo Aguiar, co-autor do livro “Geoglifos da Amazônia - Perspectiva Aérea” (Faculdades Energia, 2005), fala sobre o método de construção das formas geométricas do Acre: “cortes são escavados, e a terra extraída é, cuidadosamente, depositada ao lado do sulco, formando figuras em alto e baixo relevo”. Aguiar viu imagens dos anéis de terra do extremo-sul gaúcho e disse estar convencido de que alguns deles também podem ser pré-históricos. Assim como o arqueólogo Fábio Vergara Cerqueira: “Pensei muito nesta hipótese quando vi as fotografias. Na medida em que se descobrem geoglifos no Acre, existe igualmente a possibilidade de geoglifos em nossos campos”.
André Prous relatou em seu livro “O Brasil antes dos brasileiros” (Jorge Zahar Editor, 2006) que as formas geométricas escavadas no território acreano, “muito parecidas com as assinaladas no Rio Grande do Sul, associadas à Cultura Taquara/Itararé, são em geral interpretadas pelos arqueólogos como estruturas defensivas e apresentam um fosso largo”, referindo-se àquelas já estudadas no norte/nordeste do estado. Esses sítios arqueológicos classificados como “estruturas anelares” têm entre 20 e 170 metros de diâmetro e também existem no Paraná, em Santa Catarina e até na Argentina.

FOTO: geoglifos gaúchos no jornal Diário Popular

É possível acreditar que eles sejam similares aos de Capão do Leão e outras cidades próximas se os compararmos a uma ilustração reproduzida por Letícia Morgana Müller em sua dissertação de mestrado “Sobre ossos e índios” (PUC/RS, 2008). O desenho mostra um dos anéis de terra citados por Prous com uma borda idêntica às dos geoglifos do extremo-sul. Mas Ana Maria Rüthschlling apimenta ainda mais a discussão ao relembrar em “Pesquisas arqueológicas no baixo rio Camaquã” (UNISINOS, 1989) que a cultura Taquara seria intrusiva na região de Pelotas. Isso poderia enfraquecer a hipótese dos geoglifos em questão serem resquícios desse povo, já que seria necessário mobilizar um bom número de pessoas para se produzi-los.

Ou seja: ainda há muito o que se estudar antes que se possa chegar a uma conclusão definitiva sobre os geoglifos do sul/sudoeste do Rio Grande do Sul. Até lá, a dúvida continua em aberto. Quanto tempo irá demorar até que todas essas estruturas anelares sejam escavadas e tenham suas verdadeiras funções e idades reveladas? Talvez muitos anos. Mas elas continuarão lá, inertes e silenciosas, à espera de alguém interessado em trazer à tona sua verdadeira origem.





Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional
http://rhbn.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=2912 









Geoglifos Gaúchos

 


Leia aqui a matéria "O Mistério dos Geoglifos Gaúchos", publicada em 09/05/2010 no jornal Diário da Manhã (Pelotas/RS) - Aqui com imagens extras, exclusivade do HISTÓRIA X ATUALIDADE
As “mangueiras de torrões” gaúchas, velhas conhecidas dos moradores do campo, surpreendem cientistas e recebem a visita de Alceu Ranzi dos geoglifos do Acre
O pesquisador veio a Pelotas e Capão do Leão/RS em abril especialmente para ver de perto estas construções, apelidadas de “geoglifos gaúchos”. Mas apesar de muitos moradores contarem que os gigantescos anéis seriam antigas cercas feitas de terra pelos escravos antes de existirem os arames de metal, não está descartada a possibilidade delas terem sido construídas originalmente na pré-história
Por: Bruno Farias
Uma vasta pesquisa baseada em mapas e documentos antigos, livros, revistas, sites, imagens de satélite e fotos digitais de alta definição, mais de 60 entrevistas e muitas idas ao campo. O resultado está sendo publicado aos poucos, um capítulo por mês, no website “Memórias Leonenses: personagens, lugares históricos e lendas de Capão do Leão/RS”. Feito a partir de um trabalho de conclusão de curso de Jornalismo, o conteúdo está disponível no endereço http://www.memoriasleonenses.xpg.com.br/. O levantamento localizou e estudou diversos lugares históricos do município: o túmulo de um enforcado milagreiro reverenciado há pelo menos 100 anos por fiéis que vinham até de outras cidades para fazer promessas; construções e monumentos antigos dos séculos XVIII, XIX e XX ; uma cerca de pedra de 1 km feita no tempo dos escravos; uma ferrovia centenária usada no transporte do granito das pedreiras leonenses até os molhes da barra, em Rio Grande; e as cavernas da Serra do Pavão usadas como esconderijo por abigeatários na década de 1950 que hoje são habitat de jaguatiricas. Estes são alguns dos lugares mostrados no site que, futuramente, poderão se tornar pontos turísticos de Capão do Leão.
A expansão da atividade econômica na região já está começando a crescer com a expectativa da construção de um oceanário e com a vinda ao Rio Grande do Sul, em 2014, de milhares de turistas estrangeiros durante a Copa do Mundo. E a estrutura para receber visitantes já está sendo viabilizada pelos órgãos municipais leonenses: a futura reativação do trem de passageiros é um projeto que a cada dia parece estar mais próximo de virar realidade. Segundo o vice-prefeito Cláudio Vitória, a cidade já tem uma locomotiva, e três vagões serão cedidos à prefeitura, vindos de Santa Maria/RS. Além de Capão do Leão já contar com um hotel fazenda, com festividades realizadas anualmente e com lugares de grande importância histórica, a maioria em ótimo estado de conservação. Dois deles são lugares absolutamente únicos: as casas onde viveram o patrono da imprensa brasileira, Hipólito José da Costa, e a viúva de Rafael Pinto Bandeira. Ou seja, a localidade é um prato cheio para a exploração do turismo
El corral - Juan Leon Paulliere (1862)
Está para ser criada a lei municipal de patrimônio, garantia da manutenção destes lugares históricos que poderão, no futuro, atrair turistas. Uma destas atrações inclusive já recebeu a visita de dois pesquisadores internacionalmente conhecidos: o pesquisador dos geoglifos do Acre, Dr. Alceu Ranzi, e o arqueólogo Fábio Vergara Cerqueira, que recuperou em Capão do Leão o maior zoólito (estátua pré-histórica com formato de animal feita em pedra) do Brasil, em formato de tubarão, datado em entre 4 e 6 mil anos de idade. Guiados por este repórter, eles foram as duas primeiras pessoas a visitarem o município especialmente para conhecer os “geoglifos gaúchos” após a sua redescoberta. As estruturas anelares de terra, já conhecidas há tantos anos pelos moradores, ficaram famosas nacionalmente em uma reportagem no site da Revista de História da Biblioteca Nacional em fevereiro de 2010. Elas chegam a ter até 120 metros de diâmetro e muitos moradores locais são categóricos ao afirmarem que são “antigas mangueiras de terra do início da colonização do Rio Grande do Sul”.
"Arrastando torrão", década de 1930 - Acervo da Fazenda Minuano, da família Blanco (Aceguá/RS)
Apesar de tantas pessoas já conhecerem os antigos currais, construídos antes da chegada dos arames de metal ao estado na década de 1870, eles estão causando polêmica. A ciência ainda não tinha conhecimento das encerras de gado desta época sendo feitas de terra. Até agora poucas mangueiras de pedra gaúchas foram realmente pesquisadas a fundo, e também é recente a documentação referente aos currais de palmas existentes em Santa Vitória do Palmar/RS. Segundo o historiador André Oliveira, que estudou as cercas feitas com mudas de palmeiras naquele município, a versão contada pelos moradores a respeito das “mangueiras de torrões” pode ser mesmo verdadeira: “Realmente devem ser currais. No caso de serem de terra deve-se analisar melhor as elevações, provavelmente realizadas por escravos”. O historiador leonense Joaquim Dias concorda, e estima-se que essas construções tenham aproximadamente 200 anos.
Encerras deste tipo existem por todo a Zona Sul, no Uruguai e na Argentina, sendo que lá a maioria deles foi feita de pedras ou de plantas. Até agora já foram localizados mais de 1000, a grande maioria circulares, e eles podem ser vistos a partir de imagens de satélite no site Google Mapas – o que lhes rendeu o apelido de “geoglifos gaúchos”. Antes dos alambrados as cercas e divisas das propriedades rurais eram feitas com muros de pedra, elemento comum na cultura gaúcha. Ou, em locais onde o minério era escasso, com outros materiais como valas cavadas no chão; madeira de diversos tipos e até de vegetais vivos. E as trilhas e estradas onde estão as “mangueiras de torrões” se conectam com as que têm também currais de pedra e de plantas.
Porém a falta de informações detalhadas sobre os currais usados pelos primeiros europeus a chegarem na região mantém a viva a dúvida quanto à verdadeira idade dos geoglifos gaúchos, e há quem não descarte a possibilidade deles serem pré-históricos, talvez tendo sido reaproveitados por tropeiros e estancieiros nos primórdios da história gaúcha. Isso ocorre devido à aparência destes enormes círculos de terra, muito semelhantes às estruturas anelares de terra da cultura Taquara existentes no norte/noroeste do Rio Grande do Sul, e com os geoglifos do Acre, datados em 2000 anos. De acordo com o Dr. Ranzi, em sua visita a algumas destas estruturas entre Pelotas e Capão do Leão, é impressionante a semelhança delas com os círculos acreanos. E o Dr. Cerqueira não descarta a possibilidade deles serem anteriores à chegada dos hispânicos.

Em outros lugares do país e do continente passaram-se décadas até que as estruturas de terra pré-históricas de terra fossem conhecidas pela ciência e, mesmo assim, ainda se sabe muito pouco sobre elas. Da mesma forma que o uso das imagens de satélite na identificação e pesquisa destas obras de engenharia é muito recente. Mas apesar dos geoglifos gaúchos também serem novidade nos meios científicos, os moradores do campo já diziam que eles seriam antigos currais. Porém ainda será necessária muita pesquisa para que se possa saber a época na qual os “geoglifos gaúchos” foram erguidos. Até lá este conhecimento popular continuará esperando por uma comprovação.
Imagens: 1. Capa e página 16 do jornal Diário da Manhã (Pelotas/RS) de 09/05/2010 ; 2. Logotipo do site MEMÓRIAS LEONENSES (Bruno Farias) ; 3. "Mangueiras de torrões" ou "geoglifos gaúchos" entre Pelotas e Capão do Leão/RS (Bruno Farias) ; 4. Bruno Farias e Alceu Ranzi visitam um dos geoglifos na Fazenda da Amizade, de Edar Ribeiro, em Capão do Leão/RS (Divulgação) ; 5. Fábio Vergara Cerqueira e Alceu Ranzi conversam sobre a borda de um dos antigos currais entre Pelotas e Capão do Leão/RS (Bruno Farias) ; 6. Um dos geoglifos gaúchos, feito de terra, entre Pelotas e Capão do Leão/RS (Bruno Farias) ; 7. El corral - Juan Leon Paulliere (1862) ; 8. Curral de palmas próximo ao Forte Santa Tereza, no Camino del Índio - Rocha - Uruguai (Foto de Amqvvv - Panoramio) ; 9 Curral de palmas e pedras no Camino del Índio - Rocha - Uruguai (Google Imagens) ; 10. "Arrastando torrão", década de 1930 (Acervo da Fazenda Minga Blanco - Aceguá/RS) ; 11. Corral de piedra en la estancia El Mirador - Durazno - Uruguai (Anibal Barrios Pintos) ; 12. Bruno Farias, Fábio Vergara Cerqueira e Alceu Ranzi tomam um cafézinho após a visita aos geoglifos gaúchos (Divulgação) ; 13. Alceu Ranzi posa pra foto em frente a um dos currais que estavam submersos na barragem de Edar Ribeiro, em Capão do Leão/RS (Bruno Farias) ; 14. Ariovaldo Dutra Barros, 63 anos, morador da avenida 25 de Julho (antigo Corredor das Tropas) conta sobre as rotas dos tropeiros, já no século XX, e sobre as contruções feitas com torrões de terra. Ele próprio viveu numa casa feita deste material e ajudou a construir um salão de bailes, também com torrões de terra; 15. Casa de torrões entre Herval e Arroio Grande (Foto de Roque Carvalho)

Fonte: http://historiaxatualidade.blogspot.com/2010/05/geoglifos-gauchos-recebem-visita-do-dr.html






HISTÓRIA NO CHÃO: O PASSADO MARCADO EM CÍRCULOS NO SUL


Jornal Zero Hora - 06 de junho de 2010 N° 16358

HISTÓRIA NO CHÃO

O passado marcado em círculos no Sul
Mapeamento de desenhos na terra revela o passado da região de Pelotas

Amontoados de terra em propriedades rurais do sul do Estado aos poucos se transformam em riquezas históricas. Vistos por satélite, os círculos revelam o passado da região. Conhecidas como geoglifos pelos estudiosos, e como mangueiras pelos homens do campo, as estruturas podem ser admiradas por quem tem tempo de parar nas estradas do interior de Pelotas e de Capão do Leão.

No entanto, a falta de conhecimento sobre esses vestígios do passado ameaça a existência dos mesmos. Bruno Farias, um jornalista apaixonado por história, iniciou uma pesquisa para mapear os geoglifos .

– Cheguei a um sítio que havia visto pelo satélite onde tinha uma mangueira de terra e, naquele dia, o dono ia destruir a estrutura porque ela estava atrapalhando o seu campo de futebol. Pedi que ele não fizesse aquilo e expliquei o porquê. Ele não tinha nem ideia do tesouro que tinha no terreno – conta Farias.

O pesquisador trabalha com a teoria de que as estruturas perfeitamente redondas eram construídas pelos escravos com torrões de terra para prender o rebanho durante as paradas realizadas pelos tropeiros que conduziam o gado até as charqueadas de Pelotas. Na época, há 200 anos, ainda não existia o arame na região, material que substituiu as mangueiras. A hipótese é embasada por documentos e relatos orais dos moradores da região.

Além disso, as mangueiras já encontradas situam-se em sua maioria no Corredor das Tropas, caminho utilizado pelos antigos tropeiros.

Especialista na área há mais de 30 anos, Alceu Ranzi, paleontólogo da Universidade Federal do Acre, esteve no Rio Grande do Sul no mês passado visitando as descobertas de Farias.

– Acredito que o Bruno está no caminho certo. No Acre, os geoglifos que encontramos devem ter sido feitos na era pré-Cabral. Já os do Sul se diferenciam. Parecem ser mais recentes – explica.

O estudo de Farias será usado como base para criação da lei de tombamento municipal de Capão do Leão. A lei faz parte de um projeto de turismo histórico a ser desenvolvido na região.

Um homem entre o trator e o geoglifo
Das centenas de mangueiras mapeadas via satélite pelo pesquisador, quatro delas se encontram na Fazenda da Amizade, propriedade de Edar Antunes Ribeiro, 72 anos. O nome do local não foi escolhido ao acaso. Todos os anos, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica utilizam a área para treinamento militar enchendo a casa de Ribeiro de amigos.

Além dos certificados recebidos pelo auxílio à Pátria, ele cuida com carinho das mangueiras localizadas nas suas terras. Tanto, que ele daria a vida por elas.

– Outro dia um amigo meu estava aí com o trator e perguntou se eu não queria derrubar uma das mangueiras, que ele fazia isso em minutos. Eu disse para ele: “Me mata, mas não derruba essa mangueira” – conta aos risos.

O sentimento é antigo. Com apenas sete anos Ribeiro mudou-se para a fazenda e desde então as velhas mangueiras são suas companheiras no campo. Ele ainda lembra do tempo em que ajudava a fechar a porteira das estruturas.

– Meus avós contavam as histórias dessas mangueiras e hoje eu repasso para meu filho e para quem vem aqui. Precisamos zelar pelas coisas antigas – explica.
Saiba mais: Além das mangueiras de terra, no sul do Estado podem ser encontrados currais de pedra e de vegetação. Os Currais de Palmas, em Santa Vitória do Palmar são um dos exemplos de estrutura formada apenas por vegetação, no caso, palmeiras.

Fonte: Jornal ZERO HORA (03/06/2010) Parte 1 / Parte 2
Fotos: Nauro Júnior / Texto: Sancler Ebert sancler.ebert@zerohora.com.br
Imagem de Satélite: Google Earth


"Preservação da história em marcas na terra"
Estudo indica que círculos feitos de terra, pedra, madeira ou plantas podem ter servido como currais para o gado transportado por tropeiros na época das charqueadas. A itenção do pesquisador é preservá-los para uma futura exploração turística

Reportagem especial publicada nas páginas 2 e 3 do jornal Diário Popular (Pelotas/RS) em 27/05/2010 com texto de Taline Schneider com fotos de Marcel Ávila, Bruno Farias e Eduardo Amorim

Pelotas. Logo que "descobertos" por acaso, em Capão do Leão, os anéis de terra com cerca de
cem metros de diâmetro, em média, instigaram o jornalista Bruno Farias a descobrir a verdadeira origem, função e idade dessas formas geométricas apelidadas de "geoglifos gaúchos". Com auxílio de uma ferramenta disponibilizada na internet para visualização de imagens de satélite, o curioso jornalista - até então leigo no assunto - começou a se dedicar À temática praticamente desconhecida da comunidade e (ainda) de pouca relevância histórica, até mesmo nos meios acadêmicos.

Nessa pesquisa virtual e através de imagens aéreas, Farias já contabilizou mais de duas centenas de geoglifos no sul e sudoeste do Rio Grande do Sul, que podem ser de diversos outros materiais além de elevações de terra, como valas cavadas no chão, muros de pedras, madeira beneficiada, árvores (inclusive frutíveras), cactus e pau-a-pique. Dezenas desses círculos estão localizados na Estrada do Passo dos Carros, entre Capão do Leão e Pelotas, também chamada de "Corredor das Tropas" por ser a rota usada por tropeiros para o transporte de vacas, cavalos e mulas a partir do final do século 18.

Depoimentos de diversos moradores confirmaram que as estruturas eram cercas feitas por escravos no início da colonização para "hospedar" os animais que precisavam descansar durante a longa viagem, na época das charqueadas que durou até o início do século 20. Esses currais possibilitavam que os bichos não fugissem e se dispersassem na mata.
HIPÓTESE MAIS PROVÁVEL

Segundo mapas antigos e outras referências, os tropeiros que transportavam esses animais realmente passavam por ali. Textos históricos situam alguns desses currais de pau-a-pique e de pedra nos atuais municípios de Pelotas, Capão do Leão, Aceguá, Bagé e outras cidades próximas. "Porém, mesmo sendo citados, é raro encontrar referências visuais sobre os tais cercados, o que mantém o assunto misterioso", observou Farias.

Com a junção de mais de 60 entrevistas a provas documentais (como um livro de 1878 que relata a construção de um curral circular feito de areia com valas internas e muradas externas com a terra tirada dali mesmo, e um antigo mapa espanhol do final do século 19 que marca as rotas ue circundavam o Estado a partir da região de Bagé) cada vez menos se cogita a possibilidade dessas construções, que são melhor visualizadas do alto (imagens aéreas) ou do espaço (imagens de satélite) terem raízes mais profundas, remontando à pré-história. "Comparando o mapa antigo com imagens de satélite atuais, pude verificar que os diversos entrepostos existentes no mapa coincidem com as atuais imagens desses currais", explicou o pesquisador.

O historiador Joaquim Dias estimou a Farias a idade dessas construções em aproximadamente 200 anos. "Mas a certeza só poderá ser obtida através do estudo de especialistas, como arqueólogos e botânicos. Eu sou apenas um curioso que luta pela disseminação, reconhecimento e preservação de mais essa parte da nossa história".

O QUE SÃO GEOGLIFOS

O geoglifo é uma figura em morros ou regiões planas que é melhor visualizada do alto, como por
exemplo de um avião, helicóptero ou balão. Algumas podem ser vistas e percebidas do solo e outras não.

Essas figuras podem ser desenhadas por rochas de coloração diferente do solo ao seu redor ou por escavações fazendo desnível no solo. Podendo atingir de uma ponta a outra do desenho até 250 metros. São encontrados desenhos geométricos (como quadrados e círculos), além de antropo e zoomorfos, formas humanas e animais, respectivamente. No Brasil, os geoglifos mais conhecidos estão no Acre, mas que diferem, na época, função e origem dos "descobertos" no Estado, que são semelhantes a centenas visualizados também no Uruguai e na Argentina.

PROFISSIONAIS ESPECIALIZADOS VISITAM "CURRAIS"

O jornalista Bruno Farias levou até alguns desses locais, no mês passado, o paleontólogo da Universidade Federal do Pará (UFPA), Alceu Ranzi - responsável pelos estudos dos geoglifos do Acre - e o historiador Fábio Vergara Cerqueira. "Só de observarmos temos a certeza de que não são formas criadas pela natureza, mas sim feitas pelo homem. É preciso um estudo mais detalhado para comprovar exatamente quando e porquê. Pode ter sido feito na pré-história, por povos nativos ou, realmente, por tropeiros na época das charqueadas", afirmou Cerqueira.

Para Farias, a visita dos especialistas foi justamente para confirmar que apesar da aparência semelhante, os geoglifos gaúchos têm idades e funções diferentes dos de lá. "Aqui eles foram feitos nos últimos séculos para contenção do gado, enquanto os da Amazônia foram feitos por povos indígenas há milênios".
Ontem foi a vez da arqueóloga gaúcha que também atua na pesquisa dos geoglifos do Acre na UFPA, Denise Schaan, conhecer as estruturas construídas no Rio Grande do Sul. "As estruturas do norte e do sul do país são parecidas somente nas imagens de satélite. Ao se chegar perto delas, se vê que elas são completamente diferentes. As valas dos geoglifos do Acre são mais largas e muito mais profundas, enquanto que os morros de terra são baixos. Aqui é exatamente o oposto".

COMO FOI A DESCOBERTA

Tudo teve início com a criação de um blog para contar a história de Capão do Leão. "Que depois
virou meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, um site e, futuramente, um livro "Memórias leonenses: personagens lugares históricos e lendas de Capão do Leão". Então um dos capítulos do estudo se mostrou muito interessante, os velhos currais circulares de pedra, terra e plantas que podem ser vistos até do espaço e que seguem velhas trilhas dos tropeiros, adentrando sul e sudoeste do Rio Grande do Sul, cruzando todo o Uruguai até chegar na Argentina. "Resolvi ir a fundo no trabalho e transformá-lo em projeto para o mestrado de Memória Social e Patrimônio Cultural".

Segundo Cerqueira, ao ingressar no mestrado com um projeto desses ele poderá montar uma equipe multidisciplinar com arqueólogo e botânico para comprovar todas as dúvidas e mistérios que envolvem os geoglifos gaúchos".


CONSCIENTIZAÇÃO PARA PRESERVAR

Farias comentou que seu principal objetivo é conscientizar a população quanto à existência dessas estruturas e a importância da preservação para as futuras gerações. Ele quer mapear e descrever o maior número possível desses currais e rotas de tropeiros com a máxima exatidão possível, buscando não só a documentação deles como a sua preservação e, futuramente, seu aproveitamento pela população como rota turística. "Para isso, o trabalho é longo de cadastrar cada ponto como sítio arqueológico, providenciar o tombamento e, só depois, construir um roteiro turístico".

Ele já está em contato com diversas prefeituras para que a pesquisa continue sendo feita. "Assim essas verdadeiras obras de engenharia poderão ser documentadas e protegidas, primeiramente nas esferas municipais, para depois sim receberem tombamento estadual ou nacional".
POSSÍVEL DOCUMENTÁRIO NACIONAL

Os geoglifos gaúchos estão concorrendo para aparecerem na produção brasileira Detetives da História do canal de TV a cabo The History Channel. O tema concorre com vários outros e o vencedor terá gravado um documentário que será exibido na televisão. "Só o fato de concorrer já é uma grande divulgação para a região, principalmente para o turismo". As pessoas podem contribuir com o seu voto no site http://www.seuhistory.com.br/

Leia mais sobre o assunto:

FOTOS:
1. De longe é possível perceber o círculo no solo; quanto mais perto, mais difícil é identificar os morros de terra escondidos pela vegetação (Foto de Bruno Farias idêntica à que foi publicada na edição impressa do Diário Popular - a do jornal é do fotógrafo Marcel Ávila)
2. Currais de pedras são conservados no município de Piratini (foto): a estrutura também pode ser feita de plantas, como os casos registrados em Santa Vitória, com palmeiras (Foto de Eduardo Amorim)
3. Figuras na terra são muito melhor percebidas se vistas em fotos aéreas ou de satélite (Foto de Bruno Farias)
4. Denise e Bruno comentam sobre a depredação atual das estruturas feitas em terra (Foto de Marcel Ávila)
5. Curral circular de terra em Capão do Leão publicada na resenha da reportagem, no site do jornal Diário Popular (Foto de Bruno Farias)


Fonte: http://historiaxatualidade.blogspot.com/2010/06/preservacao-da-historia-em-marcas-na.html


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